Espetáculo “Eldorado” em curtíssima temporada em São Paulo
O solo “Eldorado”, do ator Eduardo Okamoto, volta a São Paulo, em curtíssima temporada no Espaço Elevador, sede da Cia Elevador de Teatro Panorâmico. A temporada tem pré-estréia para convidados no dia 01 de dezembro e segue em temporada até o dia 18 do mesmo mês. As apresentações acontecem de quinta-feira a sábado, às 21h, e nos domingos, às 19h.
É a primeira vez que “Eldorado”, que é dirigido por Marcelo Lazzaratto, apresenta-se no espaço em que o diretor reúne a sua própria companhia de teatro: a Cia Elevador. Este coletivo vem se firmando, nos últimos anos, como um dos importantes trabalhos teatrais da cidade de São Paulo. Isso é atestado pela seleção consecutiva de dois de seus projetos pela Lei de Fomento ao Teatro da Cidade de São Paulo, em 2010 e 2011, e pela indicação ao Prêmio Shell pela pesquisa e criação do espetáculo “Do Jeito que Você Gosta”.
Com espaço próprio, a Cia Elevador, além de abrigar suas criações, abre suas portas para a receber trabalhos de outros artistas, como na temporada recém concluída de “Portela, patrão. Mário, motorista”, da Boa Companhia.
Sendo o Espaço Elevador não só uma casa de espetáculos, mas sobretudo um centro de pesquisa em teatro, a temporada de “Eldorado” será acompanhada de um workshop gratuito sobre “Dramaturgia do Corpo”, com Eduardo Okamoto. O curso acontece entre os dias 02 e 03 de dezembro e já tem vagas esgotadas.
Eldorado O trabalho sintetiza as pesquisas de Eduardo Okamoto sobre o universo da rabeca – instrumento de arco e cordas, semelhante ao violino, presente em muitas manifestações da cultura popular do Brasil. Em viagens de campo nas cidades de Iguape e Cananéia, no litoral sul de São Paulo, Okamoto recolheu causos, canções, ações de rabequeiros, seus timbres de voz. Esse material serviu de base para a criação dramatúrgica do argentino Santiago Serrano. Foi ele quem delineou a fábula de um cego em busca de um bom lugar, seu Eldorado.
“Eldorado”, assim, fala de territórios de viagens. Ali, onde o viajante é atravessado enquanto enquanto atravessa geografias. Ali, onde todo homem é único e igual a todos os demais.
Serviço “Eldorado” no Espaço Elevador De 02 a 18 de dezembro De quintas-feiras a sábados, às 21h Domingos, às 19h Endereço: Rua Treze de Maio, 222. Bela Vista – São Paulo. Telefone: 11 3477.7732 Ingressos: de R$10,00 a R$20,00
Encerramos com essa postagem e com a apresentação de “Agora e na Hora de Nossa Hora”, hoje , no SESC Pompéia, a primeira fase do projeto “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!”. Em 18 sessões do espetáculo e em 18 postagens neste blog registramos os 18 anos da Chacina da Candelária – o trágico episódio quando, no Rio de Janeiro, policiais assassinaram oito meninos de rua nos arredores da Igreja da Candelária.
A partir de fevereiro de 2012, o projeto será estendido ao interior do estado de São Paulo, em outras 18 sessões do trabalho em 7 cidades. Estas apresentações serão realizadas com recursos do PROAC – Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo e serão acompanhadas de atividades outras: exposição sobre o processo de criação do espetáculo, bate-papo após a primeira sessão em cada cidade, uma oficina sobre dramaturgia de ator e outras 18 postagens neste blog com reflexões sobre a situação de rua.
Assim, colocamos os pés na estrada. E para celebrar os próximos passos, postamos “Um Homem na Estrada”, dos Racionais Mc’s. Nem é preciso dizer que a música deste coletivo fala fundamente aos meninos de rua de Campinas e São Paulo: tanto quanto o Realidade Cruel, os meninos ouvem muito as suas músicas, conhecem de cor as suas letras e as têm como uma espécie de trilha sonora de suas vidas.
Neste sentido, notável e comovente foi o dia em que um dos meninos participantes da oficina de circo do projeto “Gepeto – Transformando Sonhos em Realidade”, da Ong ACADEC e do CRAISA, pretendeu jogar malabares ao som de “Um Homem na e Estrada”. Havia semanas, este menino deixava o uso de crack, apresentava-se como monitor-assistente da oficina de circo e retomava o contato com a família. Assim, os malabares acompanhados da música em que um homem, saído da prisão, descreve a sua mudança de vida realmente era um sinal das suas próprias transformações.
Obviamente não podemos dizer que em 18 anos amadurecemos um projeto social distinto daquele que assassinou crianças e adolescentes, na Candelária. Mas, nas apresentações do espetáculo, recebemos inúmeros espectadores igualmente insatisfeitos com a ordem atual da sociedade brasileira. Os descontentes, tenho certo, ainda ajudarão a construir um mundo mais feliz.
Não sei dizer o real alcance das apresentações de um espetáculo e da redação de textos para a transformação social. Mas isso, no mínimo, nos coloca em movimento e, dessa maneira, alguma relevância deve ter. Encerramos, enfim, a primeira fase de “Agora e na Hora de Nossa Hora_18″. Celebremos! Celebremos!
“Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia Rua Clélia, 93 De 21 de outubro a 27 de novembro de 2011 Sextas e sábados, às 21h, e domingos às 19h Ingressos: de R$ 3,00 a R$ 12,00 Telefone: 11 3871-7700
Uma verdade óbvia: “Agora e na Hora de Nossa Hora”, em cartaz no SESC Pompéia, é um solo. E, sendo assim, uma série de limitações lhe são impostas. Por vezes perguntaram-me se o assunto da peça – a Chacina da Candelária, a vida de meninos de rua -, não estaria melhor representada com a participação de outros atores, com o desenvolvimento de diferentes conflitos dramatúrgicos, com outra cenografia etc. Não tenho uma resposta efetiva para isso. Ora, é claro que o trabalho seria outro, fosse ele criado em contexto diverso do que foi. Ainda assim, reconheço que há, no trabalho, um enfrentamento: um único homem, em cena, procurando dar conta de uma injustiça do mundo e, dessa maneira, procurando dar voz a muitas vozes. Assim, um ator coloca-se em movimento na tentativa de vencer uma limitação, a solidão em cena.
Felizmente, as apresentações do espetáculo também me colocaram em contato com muitos outros trabalhos que, ao seu modo, procuram vencer situações que, num primeiro olhar, representariam uma limitação para a criação artística. Artistas que criam em situações de pobreza, de preconceitos etc. Ou ainda, artistas que precisam vencer dificuldades pessoais grandes para realizar as suas obras. Conhecer esses trabalhos, deu-me coragem para seguir investindo no meu próprio estudo.
Ramesh Meyyappan é um ator surdo e mudo. Aquilo que aparentemente é limitação, em sua atuação, transforma-se em mote para poesia. Sem usar a palavra, constrói seu trabalho sobre a Mímica Moderna. Em “Snails and Katchup” apresenta versão de “O Barão nas Árvores”, de Ítalo Calvino, encarnando a literatura em aproximadamente 1 hora de espetáculo. Não bastasse a superação de uma primeira limitação física, a poesia vencendo os “nãos” da vida, Meyyappan ainda realiza o espetáculo acompanhado de linda trilha sonora, executada ao piano, ao vivo. Assim, primeiro vence a si mesmo, expressando no corpo aquilo que não pode dizer em palavras; depois, generosamente oferece ao espectador um aspecto do espetáculo que lhe é inacessível, a música (pelo menos aos seus ouvidos). A arte é muito maior do que cada um de nós, parece ele nos dizer. O espetáculo é maior do que aquilo que o artista dá conta de conscientizar; é, enfim, aquilo que acontece não só entre artista e espectador, mas, a partir dessa relação, aquilo que se dá entre pessoa (ator, audiência) e a obra.
Nassim Soleimanpour é diretor e dramaturgo. Aos 29 anos é impedido pelo governo de deixar seu país. Nem mesmo a trabalho pode viajar para fora do Irã. Uma limitação para uma arte como o teatro, que exige presença viva de artistas diante de seu público. O dramaturgo, porém, não sucumbe ante a dificuldade. Escreve uma peça que não exige ensaios, não exige diretor, não exige cenário, nem preparo anterior dos atores: “White Rabbit, Red Rabbit”. A cada dia, um performer recebe, no momento mesmo da apresentação, o texto que será lido. Ali, a fábula de um coelho que vai assistir a uma peça de teatro e é inadequado para o ambiente: suas orelhas são grande demais e atrapalham a visão dos demais espectadores – haverá debate mais claro sobre a exclusão? No texto, o dramaturgo envolve performer e audiência numa série de tarefas e decisões. E nos lembra: não posso estar aí com vocês que, então, são meu futuro. Temos, assim, a responsabilidade sobre nossas escolhas e, sobretudo, uma missão: fazer chegar a arte onde o artista não pôde. Por fim, o trabalho ainda abarca uma certa discussão sobre o suicídio, envolvendo decisões dos espectadores. Em, nós, a responsabilidade: somos mesmo o futuro do dramaturgo?
Em “King Lear”, o ator taiwanês Wu Hsing-kuo desafia-se: sozinho pretende representar todos os personagens de “Rei Lear”, de Shakespeare. Quem conhece a tragédia shakespereana sabe que montá-la como solo é, em princípio, aceitar um fracasso: a impossibilidade de abarcar sozinho tantos aspectos humanos abordados na obra. Se não pode vencer a peça, Wu Hsing-kuo vence a si: dilata-se enormemente, encontra em si mulher, homem, velho, jovem, cego, floresta, mar. Não sei dizer o que ele fez com Shakespeare, mas posso dizer que Shakespeare o tornou grande – em momento marcante da encenação, tira figurinos e maquiagem e grita: “Eu sou Rei Lear! Eu! Eu!” E nós o acompanhamos: grandes, como todo homem; pequenos, como qualquer homem.
O ator, célebre intérprete da Ópera de Pequim, ainda encontra, no seu corpo, intersecções entre Oriente e Ocidente. Somos, assim, muito ocidentais, como Shakespeare. Somos, assim, muito orientais, como Wu Hsing-kuo.
Arte é exercício de liberdade: revelação de sentidos que cotidianamente estão obscuros; a possibilidade de ressignificá-los; a mudança da rotina, transformação. Por vezes, no entanto, a vida que se apresenta é muitíssimo pouco afeita à libertação, envolta em circunstâncias hostis: a miséria, a polícia, as nossas muitas deficiências, a solidão.
As participações de “Agora e na Hora de Nossa Hora” em muitos eventos possibilitaram-me um intercâmbio com muitos artistas. Aí, oportunidades incríveis de aprendizado com a experiência alheia: vencer os “nãos” da vida com os “ainda há muita coisa possível” da poesia. Vencendo circunstâncias, vencemos a nós mesmos e, no limite, vencemos, como escreve o grande Ariano Suassuna, a própria morte:
Abertura sob pele de ovelha
Falso Profeta, insone, Extraviado, Vivo, Cego, a sondar o Indecifrável: e, jaguar da Sibila – inevitável, meu Sangue traça a rota desse Fado.
Eu, forçado a ascender, eu, Mutilado, busco a Estrela que chama, inapelável. E a pulsação do Ser, fera indomável, arde ao Sol do meu Pasto – incendiado.
Por sobre a Dor, Sarça do Espinheiro que acende o estranho Sol, sangue do ser, transforma o sangue em Candelabro e Veiro.
Por isso, não vou nunca envelhecer: com meu Cantar, supero o Desespero, sou contra a Morte e nunca hei de morrer.
Ariano Suassuna
Uma das minhas pelejas com a arte apresenta-se somente até amanhã no SESC Pompéia: “Agora e na Hora de Nossa Hora” encerra temporada de 18 sessões, amanhã, dia 27 de novembro. Todos são convidados!
“Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia Rua Clélia, 93 De 21 de outubro a 27 de novembro de 2011 Sextas e sábados, às 21h, e domingos às 19h Ingressos: de R$ 3,00 a R$ 12,00 Telefone: 11 3871-7700
16.A Música dos Meninos de Rua de Campinas: Realidade Cruel
Estamos já na décima sexta postagem de “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!”. Em 18 postagens nesse blog e 18 sessões de “Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia marcamos os 18 anos da Chacina da Candelária – quando, no Rio de Janeiro, oito meninos de rua foram assassinados por policiais.
Nessa publicação, revelo uma influência essencial para o espetáculo: Realidade Cruel. O grupo de rap foi formado em 1992, na Região Metropolitana de Campinas. São célebres as músicas do coletivo criadas a partir de outras canções da MPB ou mesmo da música pop internacional.
Trabalhei com meninos de rua e com adolescentes do Internato Jequitibá, antiga FEBEM, em Campinas. E posso dizer com absoluta certeza: poucos artistas conseguem falar tão fundamente com esses meninos como os rappers dessa banda.
Assim, a música do Realidade Cruel acompanhou-me em muitos ensaios de “Agora e na Hora de Nossa Hora”. E uma delas, “Depoimento de um Viciado”, é cantarolada por Pedrinha, personagem do espetáculo.
É recorrente, no teatro contemporâneo, a realização de encontros entre culturas (interculturalidade) como procedimento de criação da cena. De maneira análoga, ainda que norteada por princípios diversos, muitas vezes opostos, em meus processos criativos frequentemente me vali de estudos intraculturais (o estudo da cultura mesmo em que vivo, a brasileira, como mote da criação). Saiba mais sobre isso aqui.
Pouco se fala de situações em que diferentes contextos socioculturais transformam o espetáculo de teatro, durante as suas apresentações, preenchendo-o de sentidos inesperados. Com “Agora e na Hora de Nossa Hora” pude experienciar isso, em sessões no exterior e no Brasil. Aqui, apresento algumas dessas curiosas situações.
Foi inesquecível, por exemplo, apresentar no Kosovo, país que, em 2008, ainda procurava se reconstruir de uma das mais sangrentas guerras civis do século XX. Nunca a cena em que o menino de rua se rebela e ameaça com pedras os espectadores foi tão violenta.
Lá, inusitado foi também o ensaio técnico para o espetáculo. Como viajávamos somente eu e a diretora do trabalho, Verônica Fabrini, era necessário treinar o técnico que faria a operação da iluminação. Assim, eu dizia à Verônica as indicações de movimentos de luz, que as traduzia para o inglês para uma moça que nos acompanhava em nossa estada nos Bálcãs que, por sua vez, as traduzia para o albanês para o técnico que operaria a luz. Por vezes, o técnico tinha uma dúvida, refazendo o caminho das traduções inversamente.
Na Espanha, enrolei-me profundamente ao tentar explicar o porquê de policiais matarem crianças em situação de rua, no Brasil.
Em Juazeiro do Norte (Ceará), a apresentação no Teatro Patativa do Assaré, em frente à Basílica de Nossa Senhora das Dores, tradicional reduto de romeiros, preencheu o trabalho com uma religiosidade profunda.
Em Atibaia, interior de São Paulo, uma mágica: durante toda a sessão, barulhos de ratos no antigo cinema tornado teatro e, ao pronunciar um texto fundamental da peça (“Os ratos já não fazem barulho”), o espaço foi tomado por um indescritível silêncio.
Em Várzea Paulista, cidade muita próxima a São Paulo e, como quase todas as cidades próximas a São Paulo, pobre, fui congratulado por uma linda estudante secundarista que, ao final do espetáculo, disse “nunca ter presenciado uma atuação tão intensa”. Quando lhe perguntei se ia frequentemente ao teatro, a resposta foi tão sincera quanto o elogio: “Não, é a primeira vez”.
No Marrocos, na primeira cena em que tiro a camisa, mulheres com lindos lenços cobrindo-lhes a cabeça, segundo a tradição islâmica, deixaram a sala de espetáculos, horrorizadas com uma seminudez pública.
Em Campinas, ao saber da apresentação de um espetáculo de teatro, um menino de rua entra na sala. A minha atuação é ansiosa, eu quero saber a sua opinião. Porém, quase no final da peça, eu digo: “O que eu tenho mais vontade de fazer é agora!”. E o menino deixa a sala de apresentação sem que eu nunca soubesse se gostou do trabalho.
E houve ainda muitas experiências – infinitas: o público “profissional” dos festivais de teatro; os muitos espectadores que assistiam a uma encenação pela primeira vez; os espectadores que, em mais de uma circunstância, levaram consigo pedras que compõem o cenário, como recordação; a linda crítica no jornal de grande circulação que apresentava o espetáculo como capacitado para “mudar o mundo”, abrindo muitas portas para futuras apresentações; outra, na Suíça, que declarava que, a despeito dos muitos obstáculos (monólogo em português, sem tradução, sobre meninos de rua do Brasil, apresentado para um público estrangeiro), comunicava uma “emoção muito profunda”; um espectador que, na minha primeira temporada em São Paulo, apareceu com um ônibus na porta do teatro, levando outros 40 espectadores para a apresentação; Fernando Villar, professor da Universidade de Brasília, com uma pergunta simples – “Você chega ao seu limite com esse espetáculo?” – transformou-o para sempre; a produtora polonesa que, numa primeira apresentação criticou duramente a minha performance e, dando-me outra oportunidade, voltou ao espetáculo e se emocionou ao ver que eu incorporava várias de suas indicações; assim como a produtora coreana que, nas minhas primeiras ações, sentenciou que o ator é “muito tímido, por isso emprega energia demais” e, assim, igualmente modificou significativamente o meu trabalho…
“Agora e na Hora de Nossa Hora” fez de mim um homem afortunado. Com o trabalho recebi aquele tipo de fortuna que nenhuma crise econômica poderá subtrair: vivência plena das coisas. Eu estou vivo! Vivo!
Tomara que um pouco dessa vida que me alimenta em cena possa ser levada também aos espectadores. Tomara!
“Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia Rua Clélia, 93 De 21 de outubro a 27 de novembro de 2011 Sextas e sábados, às 21h, e domingos às 19h Ingressos: de R$ 3,00 a R$ 12,00 Telefone: 11 3871-7700
Esta é já a décima quarta postagem de “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!” – num total de 18 publicações que, tais quais as 18 sessões de “Agora e na Hora de Nossa hora” no SESC Pompéia, marcam os 18 anos da Chacina da Candelária.
Aqui, apresento banda e projeto social que, em verdade, dispensam apresentações: AfroReggae. O projeto social e a banda musical nele fundada já são célebres em todo o território nacional e fora dele.
Assim, evidentemente, não pretendo introduzir o leitor a uma realidade há muito conhecida por ele. Minha pretensão é simples: fazê-lo vislumbrar um pouco de meu processo criativo em “Agora e na Hora de Nossa Hora”.
O processo de criação, em sala de ensaio, antes da estréia, durou aproximadamente 1 ano e meio. Neste período, permaneci solitário por aproximadamente 1 ano e 4 meses e, nos últimos dois meses, fui acompanhado dos demais artistas que compõem a ficha técnica – diretora, musicista etc.
No período solitário, trabalhei muitas vezes ouvindo o som dos meninos do AfroReggae. Assim, celebrando a banda, o projeto e os muitos mundos que ambos nos abrem (ainda há muitas possibilidades de transformação da ordem das coisas), posto o seu videoclipe “Me Espere”:
“Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia Rua Clélia, 93 De 21 de outubro a 27 de novembro de 2011 Sextas e sábados, às 21h, e domingos às 19h Ingressos: de R$ 3,00 a R$ 12,00 Telefone: 11 3871-7700
Esta é já a décima terceira postagem de “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!”. Aproximamo-nos, assim, do fim das 18 publicações e das 18 sessões de “Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia – ambas as ações marcando so 18 anos da Chacina da Candelária.
Tenho apresentado as muitas influências que marcaram o processo criativo do espetáculo: filmes, textos, pensadores, discos. Aqui, apresento uma fundamental: o documentário “Ônibus 174″, de José Padilha.
O documento cinematográfico apresenta o célebre caso de Sandro do Nacimento, sequestrador de um ônibus no Rio de Janeiro e, anos antes, em 1993, sobrevivente da Chacina da Candelária. Assim, constitui um perturbador retrato da invisibilidade social a que a sociedade brasileira submete os meninos de rua e as circunstâncias em que esses mesmos meninos assumem o protagonismo da ação.
Além de excepcionaol obra arte, o documentáio, depois, fundamentou a criação do primeiro longa de ficção de Padilha – “Tropa de Elite”. Foi na realização de “Ônibus 174″ que o diretor entendeu que, se quisesse abordar o tema da violência urbana no Brasil, teria de estudá-la também do ponto de vista dos policiais. É aterrorizante, diga-se, como o documentário apresenta a polícia especializada em operações especiais: mal preparada, mal paga, mal equipada.
Infelizmente não encontrei o trailer do filme em português. Por isso, posto-o em sua versão em inglês:
É interessante também contrastar a obra de Padilha com a obra de ficção sobre o mesmo tema realizado por Bruno Barreto: “Última Parada 174″. A propaganda do filme de Barreto sintetiza o ponto de vista da sua realização: “Quem não tem nada a perder, não sabe quando parar”. Para os realizadores do filme, os pobres são pobres de tudo – de dinheiro, de carinho, de afeto, de dignidade, de amor à vida. Sendo pobres, não têm nada a perder, sentencia a obra. Simplificando dessa maneira a complexa situação de rua, penso, perdemos nós.
A semana passada foi marcara pelo polêmico debate acerca da presença da Polícia Militar no campus da USP. Muita gente se posicionou favorável ou contrariamente a estudantes e militares. Poucas foram as vozes que conseguiram se pronunciar para além dos esquematismos: esquerda, direita, maconheiros, vagabundos, filhinhos de papai…
Até mesmo senhores costumeiramente respeitosos e respeitáveis derraparam em seus comentários. Luiz Felipe Pondé, na Folha de São Paulo, para defender seu ponto de vista (o movimento estudantil é autoritário), homogeneizou contextos muito distintos – a Primavera Árabe, maio de 1968, a invasão da Reitoria da USP.
O Ministro da Educação, Fernando Haddad, chamado a se pronunciar, igualmente confundiu – a si e à opinião pública: “Não se pode tratar o campus da USP como se fosse uma ‘Cracolândia’ e não se pode tratar a ‘Cracolândia’ como se fosse um campus da USP”. Aí, espanto-me: e a Cracolândia merece ser tratada como usualmente se trata a Cracolândia? Depois, procurando explicar a declaração anterior, disse ao Estado de São Paulo: o aluno da USP não pode ser tratado como “cidadão de segunda classe”. Aí, meu espanto é renovado: “cidadão” não é substantivo que procure adjetivo. Cidadão é cidadão, só! Outro sinônimo para cidadania é humanidade; cidadão é, enfim, o homem!
Frequentes foram também as tentativas de minimizar o debate, restringindo um amplo movimento ao direito de uso da maconha. Assim, confundindo e pasteurizando conceitos e contextos diversos, perdemos todos.
De meu ponto de vista, para além do movimento estudantil e da comunidade da USP, o episódio suscita uma percepção: na universidade ou fora dela, o cidadão (ou seja, brasileiros, universitários ou não) mantém forte desconfiança de que a polícia não está preparada para garantir a sua segurança. Ou, no mínimo, desconfia que a polícia sozinha não tem poder de nos trazer paz. Não pertenço à comunidade da USP, não sei quais são suas necessidades e desejos. Mas conheço a PM, em muitas interações sociais, e é sobre isso que me interessa refletir.
E o faço, dialeticamente, referindo-me a uma interação com a polícia de outro contexto: a escocesa, durante o Edinburgh Festival Fringe de 2011. Ali, é hábito que atores de diferentes espetáculos divulguem seus trabalhos apresentando as suas cenas nas ruas da cidade. Como estratégia para buscar algum destaque em uma efervescência de representações, apresentei, na principal avenida de Edimburgo, a cena de “Agora e na Hora de Nossa Hora” em que o menino de rua usa crack. A estratégia deu certo: em menos de 40 minutos, a cena foi vista por cetenas de pessoas e fui abordado por quatro policiais em diferentes momentos, assim como por dois membros da organização do festival. Todos, um pouco atônitos, acreditaram que eu realmente usava crack, sendo eu não um ator, mas um morador de rua mesmo.
A história é uma boa crônica acerca de atritos de culturas: para os paulistanos, por exemplo, o uso do crack nas calçadas do centro da cidade há muito tempo não se destaca na paisagem urbana. O choque também me fez rever uma certa acomodação que temos com situações de opressão, no Brasil. Porque os policiais que me abordaram, acreditando que eu usava drogas à luz do dia, em nenhum momento foram violentos. Ao contrário, abaixavam-se ao meu lado e gentilmente me perguntavam: “Você está bem? Precisa de ajuda” Depois da minha resposta – “Fique tranquilo, eu estou atuando” -, riam de sua própria ingenuidade. É possível tratar a Cracolândia como USP!
O episódio me fez entender uma das dificuldades do público do Reino Unido em compreender uma situação fundamental da Chacina da Candelária e de “Agora e na Hora de Nossa Hora” (que a encena): “Por que os policiais matam crianças?” Para eles, a opressão policial parecia tão absurda que houve um espectador que entendeu como ficção o verídico fato histórico brasileiro – quando policiais mataram oito meninos de rua nos arredores da Igreja da Candelária. Assim, entendi, era necessário incluir no espetáculo situações em que se evidenciasse algo que para nós, latino-americanos, é dado corriqueiro: atitude de policial, o cidadão intimidado pela mão armada do Estado.
Insisto, tenho muito poucas opiniões sobre o que acontece na USP. Tenho pouca informação e, aquela que me chega, é, como se viu, confusa. Por isso, não sei dizer se a PM deve ou não estar no campus. Mas um desconforto me persegue: será que ainda queremos essa policia, destreinada e mal paga? Porque, parece-me, enquanto o Estado restringir a sua política de paz (prefiro essa expressão à “política de segurança”) à distribuição de opressão armada, certamente haverá cidadãos de primeira, segunda, terceira, quarta, quinta, infinitas classes – distinguindo-se uma das outras somente pelo tamanho e frequência dos atentados à sua liberdade como pessoa. Há, parafraseando a música do Rappa , uma PM que eu não quero seguir admitindo – na cidade inteira e não só na cidade universitária.
Para me opor aos atentados cotidianos da sociedade brasileira contra suas crianças (contra o seu próprio futuro, portanto), não invadi a Reitoria da USP. Fiz um espetáculo de teatro: “Agora e na Hora de Nossa Hora”, que está em cartaz no SESC Pompéia. Assim, espero – ou sonho: indigno-me sem deixar de celebrar a vida! Pode ser ingenuidade, sei disso. Para mim, ainda é algum movimento e, assim, tem alguma relevância.
“Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia Rua Clélia, 93 De 21 de outubro a 27 de novembro de 2011 Sextas e sábados, às 21h, e domingos às 19h Ingressos: de R$ 3,00 a R$ 12,00 Telefone: 11 3871-7700
“Agora e na Hora de Nossa Hora”, já escrevi aqui, realiza temporada que marca os 18 anos da Chacina da Candelária: triste e célebre acontecimento histórico quando, no Rio de Janeiro, oito meninos de rua foram assassinados por policiais. A temporada constitui uma primeira fase do projeto “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!” e é acompanhada de 18 postagens, neste blog, sobre minha interação com os meninos de rua.
Aqui, relembro fundamental momento para a minha trajetória como ator (o que significa dizer também como cidadão e como pessoa): a viagem a Pristina, capital do Kosovo, para apresentar o espetáculo.
A postagem sobre a Aicha Haroun Yacobi inaugurou pensamentos sobre o “Interculturalismo”, neste blog – assim como o texto anterior que apresenta seu último filme. Acompanhando este primeiro texto, posto vídeo da entrevista dada à Carlota Cafiero, então repórter do Correio Popular, e registrada em imagens por Artur Araujo. Como considero os vídeos bem editados, gravados no “calor” de nosso retorno, considerei que a postagem das imagens interessariam mais que a redação de texto novo. Assim, segue a reportagem em várias partes:
“Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia Rua Clélia, 93 De 21 de outubro a 27 de novembro de 2011 Sextas e sábados, às 21h, e domingos às 19h Ingressos: de R$ 3,00 a R$ 12,00 Telefone: 11 3871-7700
Estamos nas duas últimas semanas de “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!” no SESC Pompéia. Esta é décima postagem do projeto - num total de 18 que, junto de 18 sessões do espetáculo, marcam os 18 anos da Chacina da Candelária.
As apresentações de “Agora e na Hora de Nossa Hora” proporcionaram experiências muitas, em todo o Brasil e também no exterior. Possibilitaram também muitas amizades. Aqui, celebro uma uma delas.
Em 2007, no Marrocos, na cidade de Agadir, conheci Aicha Haroun Yacobi – diretora de teatro, dramaturga e roteirista de cinema. Já escrevi sobre ela na edição número 2 da Revista Olhares e parte do artigo já foi publicada neste blog.
Há muito sonhamos em uma co-produção Brasil/Marrocos. Enquanto buscamos os meios de viabilizar esse desejo, mantemos uma intensa correspondência. Na última semana, ela me enviou um link para um curta seu, finalizado recentemente: ”As They Say”. Aqui, compartilho o vídeo e celebro a nova criação:
“Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia Rua Clélia, 93 De 21 de outubro a 27 de novembro de 2011 Sextas e sábados, às 21h, e domingos às 19h Ingressos: de R$ 3,00 a R$ 12,00 Telefone: 11 3871-7700