Estamos na Escócia, onde participamos do Edinburgh Festival Fringe com “Agora e na Hora de Nossa Hora” – traduzido, aqui, para “Now and at the Time of Our Turn”. Para saber mais sobre o espetáculo, clique aqui. E para saber mais sobre o seu processo criativo, clique aqui. Para ajudar a divulgar o trabalho entre amigos europeus, acesse nosso flyer eletrônico, aqui.
Enfrentamos, aqui, um desafio: como ultrapassar a barreira do idioma em apresentações fora do Brasil? Este não é um obstáculo novo, mas algo já enfrentado outras vezes com maior ou menor grau de dificuldade – na Espanha, na Suíça, no Kosovo, no Marrocos.
A solução mais imediata, é certo, seria que a peça se apresentasse na língua local ou, pelo menos, que se legendassem as apresentações. Aí, no entanto, outras dificuldades. A primeira: meu inglês é raso, no máximo o tenho como instrumental de leitura ou para o pedido urgente e desesperado de alguma refeição ou ajuda – nem me atrevo a fazer nenhuma referência aos idiomas árabe ou albanês, por exemplo. A segunda: o espaço da peça é próximo da arena, com grande proximidade entre ator/espectador, inclusive com o primeiro dirigindo-se diretamente ao outro. Legendar a peça, portanto, poderia interromper o fluxo de comunicação direta que a fundamenta, com espectadores dispersando-se do contato com o ator e transferindo a sua atenção para a legenda (que, aliás, deveria, ser projetada em 4 diferentes direções. A arena, neste aspecto, traz grandes dificuldades técnicas).
Assim, a resolução da questão do idioma necessariamente deveria estar apoiada mais na encenação e menos no recurso tecnológico. Verônica Fabini, diretora do espetáculo, propôs um procedimento que, até aqui, tem fundamentado nossas empreitadas “gringas”. Pedrinha, personagem de “Agora e na Hora de Nossa Hora”, tem urgência em comunicar seu drama. Porém, já sabe de antemão que falhará em seu objetivo: narrar a dor e o desassombro de uma noite em que um dos braços armados do Estado, a polícia, matou crianças na porta da igreja – a Chacina da Candelária. Aqueles que o ouvem, afinal, sendo brasileiros, portugueses, ingleses, árabes ou albaneses, jamais poderão compreender inteiramente aquilo que se fala. Somos todos estrangeiros à realidade cotidiana de quem faz da rua casa.
Ainda assim, Pedrinha não desiste de seu intento. Para realizá-lo, usará de todas as formas de comunicação possíveis: o português, as palavras poucas aprendidas em outros idiomas, sons e grunidos, o corpo, enfim. Em nossas apresentações, desta maneira, usamos muitas línguas para construir a linguagem da cena. Em Edimburgo, especialmente, usamos muito o inglês, mas também palavras em espanhol e italiano – o “spanglish” dos imigrantes.
Essa necessidade de se fazer entender, diga-se, não é uma invenção de Pedrinha. É cotidiano dos meninos e meninas de rua do Rio de Janeiro. Lá, os meninos falam aos turistas com seu inglês, reinventando-o à sua maneira. É célebre o episódio em que meninos de rua dirigiram-se à turistas sul-africanos, nos arredores da Candelária: “Hey, gringo! Have money para mangiare?” Um dos antecedentes da Chacina da Candelária, o polêmico episódio, meses antes da matança, já evidenciava a tensão crescente das desigualdades sociais brasileiras – a opulência dos que tem muito para se divertir, concretizada, aqui, no país-paraíso dos turistas, e a necessidade dos que têm quase nada para sobreviver.
Assim, se por um lado o idioma constitui barreira primeira para a comunicação, de outro, a direção do espetáculo transformou esse obstáculo em procedimento de encenação. A dificuldade de acesso à língua (um bem de garantia dos recursos materiais para a vida e também de construção de imaginário), aprofundando o apartheide social em que ainda se vive no Brasil e no mundo.